Frame Saw: nem tudo estava perdido

Refazendo o travamento da lâmina

8 comentários

27 de Fevereiro de 2016

Uma nova lâmina está a caminho. O fabricante fez questão de me enviar uma outra lâmina após eu entrar em contato detalhando as experiências em relaxar os dentes. M. Harrel me disse que iria ver de perto a questão de validar a consistência do travamento afim de evitar a minha experiência obtida com a primeira lâmina. Enquanto isso, após alguns dias de resfriamento da efervescência em lidar com este projeto, decidi me aventurar em uma tentativa de refazer o travamento da lâmina. Afinal de contas eu teria que mais cedo ou mais tarde aprender a me virar sozinho com isso. No mais, uma nova lâmina estava a caminho, eu poderia me exercitar com a lâmina que tinha em mãos. Sem contar a garganta entalada em investir tanto esforço e não conseguir concluir algo positivo. Bom, eu nunca havia travado um serrote. Deparei-me com uma oportunidade ímpar de obter um alicate travador Somax 250 por meros R$ 50,00. Sim, ele estava novo, na caixa! Creio que um preço não reajustado após esta alta explosiva do dólar.

Eu estava muito confiante de que no mínimo seria necessário refazer o travamento. Por que? Vejamos. Toda esta estória começou com a lâmina saindo rapidamente para a direita. Ok. Após contato com o fabricante, fui instruído a relaxar os dentes do lado direito. Como contava somente com uma pedra #1000 como abrasivo plano mais agressivo, tive que fazer uma boa dose de passadas. Sim, a lâmina saia muito para a direita! Ok. Após alguns relaxamentos, obtive o meu melhor desdobro até então, bom, ao menos considerando-se os mais significativos. Refiro-me ao desdobro registrado na postagem anterior sobre esta serra. Lembro de fazer mais um ou dois desdobros para validar a ferramenta. Felicidade pura, serra cumprindo o objetivo, optei em desmontar todo o protótipo e terminar o projeto. Não me lembro bem ao certo se foi logo após remontar, mas ao realizar um desdobro qualquer, notei ao abrir a peça um leve calço, na ordem de 1/32 (e olhe lá!) formado em uma das faces internas da peça que estava sendo aberta. O calço indicava um movimento da lâmina para a direita! Hum, pensei eu. Bom, talvez seja melhor relaxar um pouco mais! Dai em diante, nunca mais vi a serra funcionar adequadamente. Mas o que é funcionar adequadamente? Hum, grande pergunta! Acho que agora eu consigo responder com tranquilidade: abrir a peça com dois cortes e nada mais. Primeiro corte em um dos topos segue com a lâmina até o limite permitido pela morsa. Segundo corte no topo oposto com o objetivo de alcançar o término do primeiro corte. A lâmina deve cair pela peça abaixo quando terminar o segundo corte. Momento em que percebi que havia conseguindo alcançar o desejável. Porém, devido a um perfeccionismo sem sentido acabei continuando com um processo que levou a desconfiguração total da lâmina. Sem sentido? Sim. A idéia é abrir a peça sem dificuldades. Se isto ocorre, sempre haverá uma diferença de ordem muito pequena. Estamos falando de algo em torno de 1/32?! Insignificante pois a plaina de bancada vai remover isto com o pé na bunda.

Eu procurei ilustrar o que fiz para destravar a lâmina. Procedimento simples e funcional. Com uma mão eu seguro a lâmina apoiando a mesma sob uma superfície mais dura que os dentes. Escolhi uma lâmina de plaina com aço bem duro. (Calma... Antes que alguém levante o dedo indicando uma atrocidade com relação a pobre lâmina, tenha em mente que estou usando a parte de trás e de cima de uma lâmina de uma plaina convencional. Parte não utilizada em absolutamente nada. Depois, acredite, você não notará sequer um arranhão neste procedimento). Com a outra mão, um martelo. De preferência com cabeça de aço. Eu dispunha de um martelo véio de ferro mesmo. A ideia é deslizar lentamente a lâmina pela superfície de base enquanto se martela dente a dente com o mesmo impacto.

Infelizmente eu não disponho de nenhum ferramenta precisa o suficiente para medir o travamento, usei um paquímetro inapropriado e pelo o que entendi parecia ainda haver um travamento de 0,1mm ao final do processo. Ok. Era o suficiente.

Prendi a lâmina na minha morsa de Moxon e marquei com caneta o topo de uma fileira de dentes em par. A marcação nada mais é do que uma referência de ajuda para não se perder. Afinal de contas, os dentes adjacentes são dobrados em sentidos opostos. A ideia era obter um travamento entre 20 e 30% mais espesso do que a largura da lâmina. Foi muito difícil validar o resultado com o meu paquímetro, mas certamente foi essencial ter a ferramenta por perto ao menos para estabelecer algum contexto.

O desafio neste processo, para variar, é... consistência. Mesma força aplicada a cada dente. Muito cuidado em não dobrar em demasia ao mexer no alicate. Isso não é fácil. Para o leitor ter uma ideia, eu refiz o procedimento de destravar e travar, nada menos do que três vezes! De certo que sempre tinha em mente que era a minha primeira vez e que não podia exigir muito do resultado final.

Na terceira tentativa, ao testar a serra em uma ripa com uma linha em lápis como guia, percebi um deslocamento para a direita. Ok. Eu sabia o que fazer. Bom, ao menos considerando-se que este problema não seria por causa da afiação em si, algo que pelo o que entendi é mais raro de ocorrer. Não pensei duas vezes, hora de relaxar um pouco os dentes no lado direito. O processo foi resumidamente ilustrado na postagem anterior, inclusive. Repeti cinco vezes e fiquei satisfeito com o resultado. Testei um desdobro em uma peça pequena com 4" de largura, um sucesso! Lá estava um levíssimo calço para um dos lados, com o aprendizado, ignorei. Afinal de contas a peça abriu sem esforço... Seguindo.

Primeiro desafio mais do que significativo: desdobrar uma peça com 7 1/2". Wow, isso seria provavelmente um fracasso na semana anterior... Seria certo de que a peça não abriria naturalmente. Teria que usar força bruta, chave de fenda e coisas do gênero. E sim, o resultado não seria um calço insignificante, longe disso. Respirei fundo e encarei o teste sem paranóias: serrando tranquilo porém atento ao esquadro da serra. Para a minha alegria a serra chegava sem dificuldades até as proximidades da linha final no término do segundo corte. Pensei logo, caramba, vou conseguir! E consegui. A primeira fotografia demonstra o segundo corte já no final. A segunda uma aproximação em que é possível notar claramente o ponto de término do corte ao reparar no entupimento de serragem logo abaixo da lâmina. Terceira fotografia o resultado após abrir. Quarta uma aproximação horizontal para tentar demonstrar o nível das irregularidades, que são normais.

Comparando a eficiência da lâmina com o que eu tinha no começo, era óbvio que as minhas modificações degradaram a qualidade da afiação. Afinal de contas, além de não ter ferramentas precisas para tal procedimento, a minha habilidade e conhecimento beiram o ridículo quando se compara com um profissional da categoria do M. Harrell. Mas como o Tom diz, é melhor uma lâmina cega porém ajustada do que uma lâmina descompassada que corta com uma eficiência absurda.

Mais um terceiro corte consecutivo e eu iria bater o martelo assumindo que o problema havia sido resolvido. Escolhi o mais difícil que tinha a disposição. Uma peça de 1/2" de espessura com 8 1/2" de largura. Tirando uma lâmina de 3/16". Wow, eu já havia tentado esse desdobro tirando 1/2" e foi um desastre enorme! Como é possível perceber pelos registros fotográficos, foi um sucesso com sabor de recompensa por tantas horas de estudo, dedicação prática e perseverança.

Umas passadas na plaina de bancada, e pronto, uma lâmina de ~1/8". Parece-me que retirei 1/32" com a plaina para colocar a superfície plana.

Senti o gosto nesta empreitada do quão é saudável livrar a mente por algum tempo. Tempo este que seja suficiente para que os ânimos fiquem anestesiados. Talvez pela minha idade eu tenha uma dificuldade enorme em fazer isso, prefiro crer que é só pela juventude. No mais e por último... O sabor já conhecido da recompensa obtida ao final de um caminho árduo, regado de incertezas e sensibilidades.

Comentários

  • paulobro

    28 de Fevereiro de 2016, 09h14m

    Ah! O doce sabor do sucesso.

    Parabens, tche. Temperar perseveranca com comedimento e' uma arte zen, hehe. Ainda nao estou pensando em me desfazer da serra fita, mas que nao pairem duvidas quanto `a utilidade de uma serra dessas.

    Way to go !!

    cosme

    28 de Fevereiro de 2016, 10h08m

    Obrigado Paulo ;)
    Hehe, eu jamais iria me desfazer, exceto uma guinada para a marcenaria puramente desplugada, o que ocorreu comigo logo cedo.
    E sim, eu também vejo com tranquilidade a função adicional de uma serra de desdobro para quem usa serra de fita.

    A pouco limpei todas as partes, sim, haviam marcas pretas com muita densidade, hehe, de tanto testar a serra em companhia de muito suor. Logo em seguida, a primeira aplicação de Tungue.

  • paulobro

    28 de Fevereiro de 2016, 12h19m

    Um dos inconvenientes no entanto, o custo do hardware de uma serra dessas praticamente iguala o de uma serra fita.

    Tsc, tsc, tsc...

    cosme

    28 de Fevereiro de 2016, 12h55m

    Eu não gosto muito da ideia de fazer comparações com uma serra de fita por entender que a máquina é muito mais versátil. Esta serra é destinada somente ao desdobro.

    Custo é um assunto sempre muito relativo ao meu ver, de todo o modo há alguns pontos que eu mencionaria:
    Se considerarmos um kit da Bad Axe (BA) adquirido na conjutura atual, o preço não chega ao valor de uma Makita LB1200F. (Sim, impostos e frete) Importante notar que o kit compreende duas ferramentas: Kerfing Plane (KP) e Frame Saw. (FA) No mais há os braceletes e pormenores para a montagem. Sim, a Kerfing Plane é companhia mais do que bem-vinda para a Frame Saw, mas nada mais é do que uma lâmina anexada a um corpo de madeira. O requisito da lâmina da KP, ao meu ver, é bem mais baixo com relação a Frame Saw. Ou seja, totalmente viável construir "in house" a sua própria lâmina. Além da possibilidade de poder reaproveitar uma lâmina já existente, seja de um serrote jogado, fazer uma lâmina do zero não me parece um bicho de sete cabeças quando pesquisamos sobre relatos desta natureza. Ainda mais quando os relatos acompanham vídeos detalhados. O hardware da Frame Saw era vendido pela BA, se não falha a minha memória, por uns $35. Sim, até pouco tempo atrás eles vendiam tudo separado. A elaboração deste hardware é abordada no último livro do Tom, de modo que novamente é possível baixar o custo em ordem muito elevada. A lâmina da KP na BA era uns ~$95. Estamos falando então de uma possibilidade de redução absurda em $130. Ok. Agora, o mais crítico ao meu ver, a lâmina da Frame Saw. A lâmina na BA era vendida por uns $130. Este poderia ser o custo significativo para quem desejasse construir tudo "in house", exceto, a lâmina da Frame Saw. Detalhe, estamos falando de um fabricante "premium" do mercado. O seu marketing é vender o melhor serrote do planeta. É exagero? Sim, hehe, é marketing agressivo ao meu ver! A lâmina do cara é isso tudo? Sim... É sim... Acredite. Entretanto, ainda é possível fugir dos $130. Novamente, escolhe-se em fabricar "in house" a lâmina da FA. Cheguei a ver um vídeo no YT, de um camarada que fez a própria serra por completo. Não era o projeto do Tom, inclusive. Ele desdobra, no lápis (!), uma peça com largura bem significativa e bem longuinha, algo talvez em torno de 160cm. (Se houver interesse de alguém eu posso tentar achar este registro novamente.)

    Em suma, temos o seguinte. Se eu comprar hoje, com este dólar exagerado, pagar todos os impostos, fretes e demais custos, o preço é altíssimo mas mesmo assim abaixo de uma Makita LB1200F que não consegue desdobrar o que esta serra consegue. O volante é pequeno. Esta serra desdobra ao menos 12", lembrando que um dos desdobros que vi em tempo contínuo foi de uma peça com largura desta grandeza. O último desdobro que fiz com 8 1/2" já não seria possível na Makita. (Eletrificados, sintam-se, como sempre, extremamente à vontade em fazer correções sobre qualquer vírgula minha referente ao mundo plugado)

    Se a KP for construída (isso se o camarada quiser uma) e providenciar os cortes e dobras do hardware de metal para a FA, e, quiser uma serra premium da BA, o gasto seria mais da metade do valor do kit: $130 (sem impostos e frete).

    Há tempo sobrando, energia e o que mais for necessário para encarar toda a empreitada, bom, o custo vai ser muito, mas muito pequeno ao construir tudo "in house". E sim, não vejo porque não funcionar. Além de uma questão lógica, exemplos por ai não parecem faltar. Exige mais habilidade, empenho, estudo e bla bla bla, é óbvio que sim!

    Faz sentido? :)

  • paulobro

    28 de Fevereiro de 2016, 13h25m

    Pior que dentro dumas faz, hehehe...

    Mas essa e' uma abordagem para o nicho do nicho. Quem quer, prioritariamente se nao exclusivamente, trabalhar com qualidade em marcenaria desplugada ja esta em um nicho bem estrito. E ahi quem deseja, ao inves de seguir a escola do Paul Sellers por exemplo, lidar com ferramentaria premium e' uma minoria. Nao e' necessario posgraduacao em economia para entender os custos, financeiros e logisticos...

    Ate por isso, mesmo no mercado muito mais abrangente dA Matriz, nao me parece viavel essa seja uma atividade autossustentavel. Querendo dizer, nao imagino alguem va encarar marcenaria desplugada pensando primariamente no fim, no produto — o apelo esta na atividade meio, no fazer. Que inegavelmente pode proporcionar imensa gratificacao.

    cosme

    28 de Fevereiro de 2016, 14h19m

    Sim sim, um nicho. O que inevitavelmente interfere com força no custo.
    O que acho interessante, e que por vezes não é compreendido entre os novatos, é que o produto premium não necessariamente entregará mais qualidade no resultado final de quem o usa. Uma coisa bem útil nesta categoria é a comodidade.

    Eu tenho uma visão na mesma linha. Vejo com descrença um possível modelo de negócios desplugado baseado no produto final quando este não é uma ferramenta ou um similar alvo de consumo dos desplugados e dos híbridos. A Bad Axe está ai desde 2009, e parece ir bem ao que tudo indica.

    Com relação a gratidão envolvida na marcenaria desplugada, tenho que dizer que ao menos comigo não é uma vantagem isolada, longe disso. Quem sabe um dia eu publiquei aqui neste espaço uma certa autoanálise sobre a minha escolha.

  • Narciso

    29 de Fevereiro de 2016, 13h40m

    Cosme,

    Como comentei anteriormente no GDM, fico feliz por ter conseguido ajustar a lamina do seu frame, pois como havia comentado com você, este problema de puxar eu havia tido com um serrote, e que se resolveu somente com o destravamento e um novo travamento, o que fez com que ele melhorasse muito o alinhamento durante o processo do corte.

    Estes problemas, ao meu ver ao menos, são obstáculos necessários para o nosso aprendizado e com certeza apenas irá engrandecer a qualidade dos seus trabalhos e a manutenção de suas ferramentas.

    Forte abraço, e que você tenha grandes conquistas com esta excelente ferramenta,

    Narciso.

    cosme

    29 de Fevereiro de 2016, 14h27m

    Obrigado Narciso, realmente foi muito bom passar por este processo de aprendizado e experiências. É recompensador conseguir reparar uma lâmina que eu acabei desconfigurando além do problema original.

    Ainda estou digerindo lentamente a condição fantástica de ter o poder de fazer desdobros como eu quiser. Isso pra mim significa muito porque eu sempre trabalhei com a madeira bruta. Já joguei muita madeira fora ao desengrossar por causa das dimensões do projeto. Fora o esforço envolvido no processo e o consumo do fio, o que leva a mais afiações. Um caso muito comum era voltar na madeireira para comprar mais de uma determinada espécie de 2,5cm(1") e o estoque ter acabado, sobrando porém a espessura de 4cm(1 3/4"). Forçado a alterar o projeto ou... jogar fora madeira.

    Novos tempos!

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