Cuba de apoio #4: Parte I

Cuba de apoio para banheiro

8 comentários

25 de Março de 2016

Cinco cubas de apoio para banheiro a serem construídas seguindo o mesmo projeto. Nada de sofisticado, pelo contrário, a simplicidade amparou o desenho, porém, sem abrir mão da qualidade e funcionalidade. Uma caixa retangular com um fundo que recebe uma válvula de escoamento, e é isso. De modo que o leitor pode se perguntar: "Ora, mas isso é tão simples que chega a ser fácil...". Hum, não é bem assim. Primeiro, não vale usar qualquer selante para vedar a água. Sim, absolutamente nada em adicional nas junções, na válvula, nas arestas, nada. A caixa tem que ser bem construída o suficiente para não vazar uma gota de água ao travar a válvula e encher a mesma como se um punhado de roupas fossem ali depositadas de molho para uma lavagem manual. Complicou um pouco não? Mas não pára por ai. Com a válvula aberta, ao fechar a torneira a água deve escorrer com facilidade sem formação de qualquer poça no fundo. É, pois é, aquele fundo plano não vai servir. Por último, a cuba deve ser impermeável a ponto de manter o acabamento sedoso ao toque, nada de absorção da água por parte da madeira. É simples, ao menos o resultado, mas a construção não é trivial, hehe.

Esta série de postagens é o registro de algumas etapas da construção da quarta cuba (#4). Construir uma caixa na marcenaria é a base de muitos móveis, seja na proporção de um nicho ou de um armário grande. Isso me motiva em fazer caixas cada vez mais eficazes e eficientes. Repetir este tipo de projeto é um bom investimento. Neste sentido, é impressionante o surgimento de ideias melhores a cada unidade produzida mesmo que se tente fazer o melhor na construção em curso.

Para variar... Tudo começa efetivamente no dimensionamento das peças. Momento em que reina a Bancada para serrar e o um serrote grande (neste caso um 26") para corte ao longo do veio. Aproveitei o momento para experimentar os cortes sem um barrilete ou grampo prendendo a peça. Nada mais do que uma osmose de ver o Tom diversas vezes cortando tudo o que é peça sem fixações que não sejam as mãos e o joelho. Até que funciona bem, nenhum problema neste caso. Sim, significativamente mais eficiente. Além do tempo de fixar, elimina-se a reconfiguração para andar com a peça para frente ou para trás, o que pede reposicionamento do barrilete ou do grampo.

A idéia aqui é montar o fundo da cuba usando dois pedaços colados.

Aparelhamento das laterais realizado somente com uma plaina #6. Limpeza, desempeno e acabamento. Tento ilustrar na sequência acima uma vantagem bem eficiente no uso de um dog e uma ripa em V fixada por um barrilete para prender uma peça a ser aplainada: para se aplainar a face oposta, simplesmente vira-se na vertical e em 180 graus a peça, não sendo necessário reconfigurar o mecanismo de fixação, o que tipicamente ocorre em uma morsa com fuso. Sim, isso também é bem útil e frequente quando se deseja retirar a peça durante o desempeno para averiguar na altura dos olhos.

Uso da morsa de Moxon para desempeno das arestas. Atualmente infelizmente a morsa ocupa parte do espaço utilizado pelo mecanismo de fixação barrilete/ripa. Isso porque ainda há somente um furo para o barrilete que fixa a ripa, e, o fundo da bancada é o espaço com mais iluminação, hehe. Realmente tirar e colocar a morsa não é lá insignificante durante horas de desempeno, mas também não é o fim do mundo.

Colando o fundo com Poliuretano. Abusei da vantagem da cola de poder retirar os grampos após 4h de prensa. Isso agilizou um tanto a execução.

Após o aparelhamento das laterais, notei que a peça da esquerda tinha uma espessura maior do que todas as outras três peças em aproximadamente ~3/16". No passado isso não significaria absolutamente nada. A ação seria simplesmente desengrossar. Mas as coisas mudaram um bocado após a Frame Saw. Uma ótima oportunidade para um desdobro, afinal de contas a lâmina poderia ser facilmente utilizada no futuro. No entanto não havia espaço para falhas. O resultado teria que ser uma lâmina de 3/16" e uma peça de ~1/2 + 1/32". A ideia era arredondar todas as outras peças para a espessura de 1/2", de modo que eu tinha uma margem de ~1/32" para ter em mãos a peça final aparelhada.

O desdobro foi um sucesso. Na esquerda o resultado após o desdobramento e na direita a peça a ser utilizada após o aplainamento, que felizmente saiu conforme o planejado: poucas passadas necessárias a ponto de obter uma espessura final de 1/2" .

Com todas as quatro laterais aparelhadas o próximo passo foi fazer as testas em 45 graus com um miter shooting board. Procedimento por sinal eficiente e preciso.

Quando eu comecei a usar plainas, lembro de ingenuamente associar a qualidade do meu aplainamento ao formato das fitas ejetadas. Com o tempo descobri que isso não era razoável. A perfeição da fita é dependente da orientação dos veios da madeira. É possível notar uma diferença grande entre as fitas exibidas na três fotografias logo acima com relação a primeira fotografia que ilustra o procedimento. Isso, aquela fita perfeita translúcida que os japoneses tiram em suas plainas nos campeonatos, não é exclusivamente fruto da lâmina e nem tão menos da plaina, mas sim, há uma forte participação da madeira utilizada, hehe.

Laterais prontas para receberem os canais de encaixe do fundo. Nos vemos em breve.

Comentários

  • paulobro

    25 de Mar?o de 2016, 03h27m

    Meticuloso, altamente preciso, resultado impecavel, o trabalho cumpre as regras que estabeleceste `a perfeicao.

    E que tal o desempenho da fore plane comparado com o da jack?

    cosme

    25 de Mar?o de 2016, 08h23m

    Mexer com água na marcenaria não é trivial. Se não é precisão para evitar vazamentos a coisa pesa para o lado do acabamento, hehe.

    A fore(#6) tem um desempenho tão bom quanto a jack(#5), sem diferenças notáveis durante o aplainamento. Falando um pouco mais sobre as duas eu diria:

    A #6 tem um comprimento maior a ponto de facilitar os desempenos e é tão precisa e ajustável quanto a #5, exceto a abertura da boca que ao meu ver não é algo tão algo convidativo na primeira. Ao menos por aqui é preciso manter apertado um parafuso frontal que trava a cama da lâmina(frog). Há na traseira um parafuso com manipulo para ajuste da boca, porém a trava por si só não tem se demonstrado eficaz, de modo que pegar uma chave de fenda e mexer no parafuso da frente é sempre obrigatório.

    É possível obter ângulos elevados com a #6 através de um chanfro traseiro na lâmina, mas não diminuir o ângulo, o que é muito fácil na jack com sua cama de baixa angulação e lâmina com chanfro para cima. Por aqui navego entre os 32 e 60 graus com facilidade na #5: só trocar a lâmina. Falando nisso, procedimento mais simples porque não há capa para a lâmina.

    O peso mais baixo da #5 faz diferença no decorrer do dia. As laterais são mais parrudas também, tornando o shooting em peças duras com espessura uma tarefa mais segura para a ferramenta, pois a pressão na plaina é grande.

    Particularmente prefiro, ou me acostumei mais, a pegada tradicional com dedo indicador para frente, pegada natural de um modelo clássico como a fore. Na jack o cabo meio que fica isolado, um pouco estranho, mas... acaba sedo costume.

    A lâmina da fore é 1/8 mais larga.

    Acho que é por ai, em suma, duas plainas fantásticas com muita versatilidade ao meu ver, mas a jack acaba levando mais pontos.

  • Guido

    25 de Mar?o de 2016, 06h22m

    Me impressiona o estilo limpo, traços simples e perfeitos que usas, e mais ainda por ser uma marcenaria desplugada. Parabéns.

    cosme

    25 de Mar?o de 2016, 08h24m

    Obrigado Guido, um abraço!

  • Sergio Luis Nehring

    25 de Mar?o de 2016, 19h34m

    Grande Cosme, sempre um aprendizado para mim, qualquer publicação tua. Que perfeição de trabalho. mas estou " encucado e curioso" como ficará esta vedação?, apesar dos canais que serão feitos a pranchinhas sempre irão trabalhar e água é um negócio complicado. No aguardo da evolução.

    Cara, sinceros parabéns e "segue o baile".

    Bração.

    cosme

    25 de Mar?o de 2016, 19h51m

    Tudo o que tenho até o momento sobre isso é o que pude testar. As duas primeiras cubas passaram por testes com água, mas ainda não estão sendo usadas porque os locais que as receberão não estão prontos.

    Desde a primeira cuba, nenhum problema até agora com a água. Seja um vazamento ou então uma absorção por parte da madeira. A vedação fica a cargo das junções com cola poliuretano da Titebond, seja no fundo ou nas arestas verticais, e, do encaixe da válvula. A válvula é encaixada na pressão em um anel de borracha da própria válvula. O anel fica acomodado na cuba em uma cavidade e no fundo da cuba a válvula é pressionada por uma rosca. O anel de vedação funciona muito bem, não há necessidade de aplicação de selante. A próxima parte vai demonstrar a coisa com algum detalhe.

    Já enchi a cuba por minutos com água quase até a borda e nenhuma gota.

    A madeira vai trabalhar e...? Bom, isso eu já não sei, hehe. Vamos ver o que acontece no futuro quando as cubas começarem a ser utilizadas diariamente por meses e anos.

    O acabamento é somente, ao menos por ora, com óleo de Tungue. Está atendendo as expectativas até agora. Vai durar? Vai ser suficiente? Boas perguntas: não sei. A ideia é reaplicar de tempos em tempos. Uma outra alternativa seria um verniz apropriado, mas tenho dificuldades em trabalhar com produtos químicos que exijam diversos cuidados e até complexidades para um bom acabamento, como pistola por exemplo.

    É o que me ocorre sobre o exposto até o momento, Sergio.

    Abraço!

  • Luis Mendonça

    27 de Mar?o de 2016, 00h40m

    Beleza de post, Cosme, não sei se me passou desapercebido, mas não vi você citar a madeira que está usando, se importa de compartilhar conosco? Confesso que me preocupa o "trabalhar" da madeira, saber como a estabilidade dimensional pode atrapalhar a vedação da cuba!
    Obrigado
    luismend

    cosme

    27 de Mar?o de 2016, 07h52m

    Luis, é Cedro Rosa tabicado durante alguns meses.
    As duas primeiras cubas foram produzidas com peças de 1" tabicadas há ~2 anos no meu espaço. Estavam muito estáveis.

    No caso desta cuba todas as peças são produtos de desdobros realizados com a minha Frame Saw. Com uma espessura de ~1/2", alguns meses já parecem ser suficiente para se obter um teor de umidade satisfatório.

    Compartilho da mesma preocupação somente com relação ao fundo. Creio que o ideal seria permitir o movimento, porém com receio de vazamentos, optei em colar o fundo nas laterais. Talvez seja viável um fundo somente com um encaixo bem justo, sem cola.

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