Plaina de madeira: o começo

Construindo uma plaina estilo Krenov

7 comentários

27 de Dezembro de 2015

Agrada-me a idéia de construir uma plaina específica para uma determinada tarefa. Como não trabalho com metais, e nem tenho a pretensão, o que me resta é a madeira. Uma plaina específica pode responder por parte da qualidade do trabalho ou então a agilidade na execução. Por aqui as duas coisas já me ocorreram e continuam a ocorrer. Há outras possíveis vantagens que fico aqui imaginando o sabor. Uma delas é a possibilidade de uma plaina mais leve e macia para as mãos do que as versões em metal. Será? Tudo indica que sim, mas não posso falar do que ainda não conheço. O riscar do fósforo para construir essa plaina foi a necessidade, como sempre. Gostaria de ter uma ferramenta ágil e de bom acabamento para criar uma concavidade na longitudinal de um fundo. Para ser mais exato o fundo de uma cuba de apoio para banheiro. O caimento é bem importante na minha opinião e lixar na mão não foi lá tão agradável assim por vários motivos que prefiro não me adentrar no momento. Deixar o fundo côncavo entre as laterais é fácil com uma plaina de bancada com sola reta: é só aplainar mais do meio para as extremidades aumentando cuidadosamente a projeção da lâmina. O problema foi executar depois a concavidade na longitudinal. A idéia é apostar numa plaina pequena, algo como uma block com um fundo ligeiramente convexo. O objetivo inicial é tentar fazer a plaina funcionar com a base reta, se isso ocorrer...

Optei por uma plaina concebida por James Krenov com projeto apresentado por David Finck. Comprimento final em torno de 10" ou 9" e lâmina de 1 1/2" fabricada pelo Ron Hock.

Aparelhei uma peça de Freijó que estava secando a mais de 1 ano e fiz um improviso de uma Kerfing Plane para desdobrar as duas laterais da plaina. Como as laterais são significativamente pouco espessas e o meu serrote não adequado para tal tarefa: uma besta de 26" com 4 1/2 TPI - a solução foi improvisar enquanto a Kerfing Plane não se torna uma realidade por aqui.

O objetivo da Kerfing Plane é basicamente estabelecer um caminho de guia para o serrote, seguindo a idéia de que a lâmina procura sempre o caminho de menor resistência. Para se desdobrar, o caminho deve ser feito em todos os quatro lados. No caso usei o próprio serrote que desdobrou a peça para criar os caminhos, que nada mais são do que passadas cuidadosas do serrote amparado pelo batente até que os dentes do mesmo fiquem ocultos. A primeira fotografia foi retirada antes do estabelecimento do caminho de uma das testas. Reparem no caminho da face voltada para a câmera. A distância entre o batente e a borda é ajustada com um esquadro combinado. Na segunda fotografia o batente e retirado e a besta (ops, o serrotão!) entra desdobrando a madeira com facilidade. É uma pena eu não ter me lembrado de fotografar o resultado após o desdobro.

Resultado das três peças obtidas com o desdobro após aplainar as faces desdobradas e descansar por algumas semanas:

Desenhei as linhas de guia para os dois cortes executados no corpo da plaina. O nariz da plaina será o toco obtido com o corte em 62 graus. A traseira é o toco obtido com o corte em 45 graus. A rampa do nariz serve para a saída das fitas, já a rampa em 45 graus se destina ao berço para apoiar a lâmina.

O primeiro corte executado foi para obter o nariz porque a acuracidade da rampa em 62 graus não é crítica. Para eu ter um trabalho menor na retifica das rampas, eu improvisei um batente que serviu como guia para o corte:

Apesar de todo o cuidado, as rampas não estavam devidamente no esquadro e em ângulo após os cortes: o que era esperado mesmo, independente do recurso utilizado para o corte. As correções foram com uma plaina block com uma afiação fresquinha: isso faz toda a diferença. Na verdade a etapa foi mais fácil do que imaginei porque não é como aplainar a testa, a resistência é um pouco menor. No mais a lâmina estava muito afiada, o suporte na morsa estava excelente, a cera de abelha na sola ajudou muito e as fitas retiradas era translúcidas, ou seja, resistência bem baixa ao avançar a plaina.

Além da suta e do esquadro, uma dica bem legal para averiguar o resultado é repousar a rampa em uma superfície confiável e verificar frestas e possíveis movimentos indesejáveis ao se mexer na peça.

Segue abaixo algumas fotografias do resultado final após a retificação das rampas:

Agora é aguardar a lâmina para continuar. Até a próxima!

Comentários

  • paulobro

    28 de Dezembro de 2015, 08h39m

    Uma das vantagens obvias de fazer as proprias plainas e' poder fazer varios corpos para a mesma lamina, variando sola, boca, angulos, etc. Detalhe que me parece vale atencao, o proprio velho Krenov comentava que construir plainas em madeira envolve um aspecto de acaso, sorte. (Ele mostra em um de seus videos um corpo de lamina sobre um armario na oficina que, conta, ele tentou acertar de mil e diferentes maneiras, mas que invariavelmente vibrava, eventualmente o levando a desistir dela.)

    Se por mais nada, e ha muito — minha curiosidade obviamente fara com que acompanhe o progresso da obra com atencao. E, considerando a velocidade com que essas coisas se desenvolvem, alguma inquietude, hehehe.
    Por enquanto, votos tudo corra nos conformes.

    paulobro

    28 de Dezembro de 2015, 08h41m

    Corpo de lamina, uma ova. Corpo de plaina.
    Tsc, tsc, tsc...

    cosme

    29 de Dezembro de 2015, 12h54m

    No caso da Kerfing Plane do T. Fidgen a minha esperança inicial em ter versatilidade nas espessuras de desdobra é justamente ter mais de uma "plaina" para uma mesma lâmina, dado que: a lâmina é bem específica e o preço salgadinho, e, a complexidade de construir a ferramenta com fence ajustável parece ser bem maior segundo a experiência do Tom e de outros da comunidade.

    É bom escutar a estória do corpo largado :)
    Digamos que isso me deixa mais preparado em caso de falha.
    Em tempo, D. Finck comenta que possíveis irregularidades na superfície da rampa onde repousa a lâmina, pode levar a vibração.

    Vamos ver o que sai.

    Um abraço

  • sergiomontanha

    28 de Dezembro de 2015, 15h30m

    Fico impressionado com a precisão dos cortes que o amigo produz com as ferramentas manuais. Tenho muita vontade de tentar montar uma plaina desse tipo. Vou acompanhar a evolução de mais esse belo trabalho e quem sabe tentar a sorte. Um grande abraço.

    cosme

    29 de Dezembro de 2015, 12h57m

    Ainda cometo muitas falhas no serrote, mas as plainas acabam corrigindo.
    De todo o modo serrar não é uma atividade tão precisa quanto aplainar.

    Legal Sergio, vai que a plaina aqui - com o seu sucesso ou a sua falha, incentive você a começar a construção da sua.

    Abração

  • Adenilson

    31 de Dezembro de 2015, 08h28m

    Parabens Cosme, lindo trabalho e belas fotos.... quase pornográficas.. rs.

    Me diz uma coisa, a madeira para uma plaina, deve ser mais pesada ou mais leve? digo, uma madeira como aroeira, ou como caxeta? cito os extremos para tentar me explicar... rs.

    Abraços.

    cosme

    31 de Dezembro de 2015, 08h41m

    Eu gostaria de te responder com propriedade mas não o posso fazer, é a minha primeira plaina. Responderei com base no estudo que fiz até o momento: o peso é uma questão de escolha no projeto. Algumas aplicações como o shooting board podem se beneficiar de mais massa. O importante e mais restritivo é o tipo da madeira que está na sola, a estabilidade da peça e o seu grão. A sola dura é o mais desejável em termos de durabilidade e também versatilidade da plaina trabalhar em madeiras duras sem sofrer danos. Evitar grãos reversos e pequenas rachaduras é importante também, principalmente na sola, em que é possível afetar a retilineidade como também criar pontos em que a sola pode se desgastar.

    Não vejo qualquer problema no corpo em si ser de madeira macia/leve, pelo contrário, é mais fácil de trabalhar a madeira e a plaina fica ainda mais leve, isso se leveza é o desejo do usuário.

    Abração

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